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  Carnaval de Lazarim

O Carnaval de Lazarim, no concelho de Lamego, é sem dúvida dos mais genuínos carnavais portugueses, mantendo bem vivas tradições ancestrais que perduraram ao longo dos tempos. Máscaras carrancudas de madeira, esculpidas por artesãos da aldeia, são nesta época festiva utilizadas por jovens de ambos os sexos - os caretos e as senhorinhas.

Aqui o ritmo das escolas de samba não conseguiu ainda penetrar, o que não deixa de tirar atractivos a este carnaval autóctone, senão vejamos, mais abaixo, o conteúdo dos testamentos lidos no largo da vila.
A tradição perde-se no tempo. 
Conseguimos regredir no tempo, através do testemunho de um habitante da vila, que recorda ainda relatos do seu avô, e assim pesquisar mais sobre a tradição até ao ano de 1879. Por essa data, conta o nosso interlocutor, já se festejava em Lazarim o Carnaval, que assumia então contornos de uma manifestação medieval, carregada de referências ao belzebu, macabra e assustadora, em especial para os mais novos.  Máscaras de madeira eram frequentemente revestidas a pele de coelho, cujo pêlo era depois rapado a lâmina de barba, deixando apenas assinalados com o pêlo do próprio animal as zonas das sobrancelhas e do bigode.
Cobras e sardões, apanhados no estado de hibernação do inverno, eram também frequentemente utilizados. Pregados às máscaras de madeira serviam de ornamento a estas, deixando aterrorizadas as gentes de Lazarim.

A leitura dos Testamentos da Comadre e do Compadre é dos pontos altos dos festejos. A moça inicia a leitura do Testamento do Compadre e de imediato surgem as críticas aos rapazes da vila, com a sagacidade de quem aguardou o ano inteiro para dizer umas verdades... e disse-as todas, porque se ainda algumas guardou, então talvez seja melhor não as dizer... sabe-se lá o que vai sair ...
Segue-se-lhe o moço, bem trajante e aperaltado q.b., de patilhas em riste e chapéu domingueiro. Logo na primeira quadra se repara que a toada de resposta vai estar ao nível do praticado pela sua colega. A compita provoca gargalhadas sucessivas na multidão que assiste e se diverte com a sagaz crítica social. Em Lazarim, nessa tarde vale tudo ou "aonde estivesteis tu ómem que num ouvisteis falar de ti"...

 

Testamento do Compadre

[ uma rapariga da vila lê o testamento a um rapaz ]

Quando tocares no apito
Não o mostres a ninguém
Apenas à namorada
Para ela o tocar também

Não sei que raio vos deu
Parece que é comichão
Passais a vida a coçar
O instrumento com a mão.

Sois todos uns paneleiros
que não valem 2 vinténs
Ninguém quer de vós saber
Até vos mijam os cães.

Alguns vêm de propósito
Para meter o focinho
Mas aquilo que nós queremos
É que leveis no cuzinho.

Alguns metem nojo
Com o paleio que têm
Se isto é tão ruim
Porque diabo cá vêm

De vós me vou despedir
Ó grande rapaziada
Não gostais de raparigas
Juntos fazeis marmelada.

[excerto do Testamento do Compadre de 2000]

Testamento da Comadre

[ uma rapaz da vila lê o testamento a uma rapariga ]

Olá queridas comadres
Olá grandes feiticeiras
Cá estamos mais uma vez
Para vos tirar as peneiras.

Sois todas umas cadelas
Quase me matais de fome
Senão tivesse vergonha
Tratava-vos por outro nome.

Tende cuidado com o burro
Que ele é abonado
Se a dele não chegar
Tendes aqui mais um bocado

Hoje em dia as raparigas
São de lhe tirar o chapéu
Se lhes tirarmos os trapos
Ficam com os podres ao léu

Olá menina Márcia
Condutora de fim de semana
Não sei qual foi a ideia
Da tatuagem na mama

Já estou farto desta merda
Só me apetece dar um grito
Sois todas umas corrumbeiras
Ide todas levar no pito.

[excerto do Testamento da Comadre de 2000]

Localização
Lazarim fica a poucos minutos da cidade de Lamego, com acesso pela estrada nacional EN226 que une Lamego a Tarouca e desvio pela Estrada Municipal que conduz a Lazarim.

Texto: Ferreira Matos / Fotografias: ©EUROWEB



 
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