 
Nas fraldas da Serra do Montemuro sobressai a vila
de Cinfães, entre aldeias de casas de telhados de colmo e
cursos de água que galgam as encostas verdes em direcção ao Douro. Nessas terras
em redor, onde o solo é semelhante a uma manta de trapos gigante, fruto da
influência dos Romanos, muitos são os vestígios deixados por povos ancestrais,
como testemunham as pinturas rupestres possivelmente datadas do Paleolítico. Em
todos os recantos se respira história. Entre fraguedos e arrepiantes miradouros,
resistem, no alto do monte, as ruínas das Portas de Montemuro, uma construção
proto-histórica de defesa militar e em Crestonhe, passou a infância D.
Afonso Henriques, primeiro rei português, na companhia do seu aio D.
Egas Moniz.
Nas proximidades de Cinfães, entre o verde das encostas
ribeirinhas e o ondular das águas do Douro, na baía de Porto Antigo, habitantes
e forasteiros descansam o corpo e o espírito, enquanto contemplam as modernas
motos de água e os cruzeiros fluviais. Ali, no mesmo local, onde, muitos anos
antes, à varanda de sua casa, o explorador Serpa Pinto sonhou
em partir por mares e oceanos até terras de África. O destino cumpriu-se, e hoje
o reconhecimento dos cinfaneses pelos seus feitos e coragem é bem visível no
Museu com o seu nome e no jardim próximo da Igreja Matriz, onde figura o seu
busto.
Serra acima, os antigos rituais surgem a cada passo, vivos e
intactos. Em Boassas, tida como a segunda aldeia mais portuguesa ou na
Gralheira, a mais próxima do cume, é frequente encontrar à soleira das portas,
um ou outro latoeiro, tamanqueiro ou a chapeleira, de mãos ocupadas a fazer a
trança de palha. Em muitas das aldeias perdidas do Montemuro, grupos de artesãs
audazes transformam o linho, o algodão e a lã, em mantas, capas de burel,
toalhas e rendas, enquanto recordam, em conversas perdidas, os tempos em que nas
madrugadas da Serra, as mulheres desciam às zonas ribeirinhas com o carvão à
cabeça, ao mesmo tempo que os mineiros mergulhavam chão dentro, em busca do
volfrâmio nas jazidas de Cova da Moira e Bustelo.
Nestas montanhas bravias, o cântico dos pássaros acompanha o
balido do gado em cada regresso a casa ao entardecer. Os dias, ora são de fadiga
e suor ou de oração e súplica aos santos protectores das colheitas, ora são de
música e de cantares, das bandas e dos grupos folclóricos nas Romarias de Verão.
Dias alegres em que família se reúne, se coze o pão, o cabrito e o pão-de-ló em
rústicos fornos de lenha e se bebe um bom copo de vinho depois da missa e da
procissão. |